A resposta curta é: furacões tropicais são extremamente raros no Brasil, mas não impossíveis. O único caso registrado de um furacão tropical no Atlântico Sul foi o Ciclone Catarina, em março de 2004, que atingiu o litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul com ventos de até 180 km/h, causando destruição em municípios costeiros e deixando um rastro de prejuízos históricos.
Por que furacões são tão raros no Atlântico Sul?
Para que um ciclone tropical se forme e se intensifique até a categoria de furacão, é necessária uma combinação específica de condições atmosféricas e oceânicas. A ausência de qualquer um desses elementos é suficiente para impedir a formação do sistema. No Atlântico Sul, três barreiras naturais se combinam para tornar esse fenômeno raríssimo.
1. Temperatura da superfície do mar
O primeiro requisito é que a temperatura da superfície do oceano esteja acima de 26 °C em uma camada profunda de água — ao menos 50 metros. Esse calor é o combustível do furacão: ele aquece o ar próximo à superfície, gerando convecção intensa que alimenta a circulação do sistema.
No Atlântico Sul tropical, as águas podem atingir essas temperaturas durante o verão austral, especialmente próximo à costa brasileira. No entanto, a distribuição é menos uniforme e persistente do que no Atlântico Norte ou no Pacífico tropical, onde os furacões se formam com regularidade. Além disso, o Atlântico Sul tende a ser menos quente em média porque as correntes oceânicas têm dinâmicas distintas.
Com o aquecimento global, porém, as temperaturas dos oceanos vêm subindo. Pesquisadores do INPE apontam que as águas do Atlântico Sul apresentam tendência de aquecimento consistente nas últimas décadas, o que pode aumentar marginalmente a disponibilidade desse combustível térmico.
2. Cisalhamento vertical do vento
O segundo — e talvez mais importante — fator limitante é o cisalhamento vertical do vento: a diferença na velocidade e na direção do vento em diferentes altitudes da atmosfera. Quando o cisalhamento é alto, os ventos em altitude “destroem” a estrutura vertical do ciclone, espalhando o calor e a umidade que deveriam se concentrar no núcleo do sistema.
No Atlântico Sul, o cisalhamento costuma ser significativamente mais elevado do que nas bacias de formação de furacões. Isso está relacionado à posição dos jatos atmosféricos e à circulação geral da atmosfera no hemisfério sul. A corrente de jato subtropical, quando ativa, impõe um gradiente de vento que desfavorece a organização de sistemas tropicais.
O Ciclone Catarina foi uma exceção: em março de 2004, uma configuração atmosférica atípica permitiu que o cisalhamento ficasse anormalmente baixo naquela região do Atlântico Sul, possibilitando que o sistema se organizasse e se intensificasse até atingir características de furacão tropical.
3. Efeito Coriolis suficiente
O efeito Coriolis é a força aparente causada pela rotação da Terra, que faz os ventos girarem — no sentido anti-horário no hemisfério norte e horário no hemisfério sul. Esse giro é essencial para que um ciclone tropical se organize e mantenha sua circulação coerente.
Próximo à linha do Equador, o efeito Coriolis é praticamente nulo, o que explica por que ciclones tropicais nunca se formam dentro de uma faixa de cerca de 5° de latitude ao norte e ao sul do Equador. Para que um furacão se desenvolva, é necessário que o sistema esteja a pelo menos 8° a 10° de latitude, onde o efeito Coriolis é suficientemente forte.
Ciclones extratropicais x ciclones tropicais
É fundamental distinguir dois tipos de sistemas que afetam o Brasil:
Ciclones tropicais (como os furacões) têm núcleo quente — o centro do sistema é mais quente que o ar ao redor — e se desenvolvem sobre oceanos tropicais quentes. Eles extraem energia do calor do oceano e perdem força quando avançam sobre terra ou sobre águas mais frias.
Ciclones extratropicais são comuns no Sul do Brasil, especialmente no outono e no inverno. Eles têm núcleo frio, se formam na interface entre massas de ar quentes e frias (as chamadas frentes frias) e têm dinâmica completamente diferente. Esses sistemas podem trazer chuvas intensas, ventos fortes e ressacas no litoral gaúcho e catarinense, mas raramente atingem a violência de um furacão tropical.
O caso do Ciclone Catarina (2004)
O Ciclone Catarina permanece como o único furacão tropical documentado no Atlântico Sul. Ele se formou no final de fevereiro de 2004 como um sistema extratropical, mas foi gradualmente adquirindo características tropicais ao longo dos dias seguintes — um processo chamado de transição tropical.
No auge da sua intensidade, apresentava estrutura de ciclone tropical clássica, com olho bem definido visível por imagens de satélite e ventos sustentados que o classificavam na categoria 2 da escala Saffir-Simpson. Atingiu o litoral sul de Santa Catarina no dia 28 de março de 2004.
A surpresa foi total: não existia protocolo de monitoramento de furacões para o Atlântico Sul, e nem mesmo havia nomenclatura oficial para o sistema, já que a bacia simplesmente não estava catalogada como área de ocorrência de ciclones tropicais. O nome “Catarina” foi dado posteriormente pelos meteorologistas como referência ao estado atingido.
O risco futuro com as mudanças climáticas
Com o aquecimento global e a consequente elevação da temperatura dos oceanos, pesquisadores debatem se a frequência de ciclones tropicais no Atlântico Sul pode aumentar nas próximas décadas. Estudos publicados em revistas científicas internacionais apontam que, embora o número de ciclones não necessariamente aumente, os que se formarem podem ser mais intensos, pois encontrarão mais energia térmica disponível nos oceanos.
O INPE mantém monitoramento contínuo do Atlântico Sul por meio de satélites e modelos numéricos, e o Brasil possui acordos de cooperação com a Organização Meteorológica Mundial (OMM) para aprimorar a detecção precoce de sistemas meteorológicos anômalos.
Perguntas relacionadas
O Brasil tem temporada de furacões? Não. Ao contrário do Atlântico Norte, o Atlântico Sul não tem uma temporada oficial de furacões. O Ciclone Catarina foi considerado um evento sem precedentes históricos documentados.
Qual foi o furacão mais destrutivo que atingiu o Brasil? O Ciclone Catarina é o único furacão tropical registrado. No entanto, ciclones extratropicais severos causam destruição frequente no Sul do Brasil.
Vendavais e tornados são comuns no Brasil? Sim. Embora sejam diferentes de furacões, tornados ocorrem especialmente no Sul e no Sudeste do Brasil, associados a sistemas convectivos intensos. Veja também nosso artigo sobre como funciona a previsão do tempo para entender como esses eventos são monitorados.